sábado, 11 de novembro de 2017

Devaneio #3 (ST - Narrador)

Eu vou fazer algumas histórias mais pra frente pra testar algumas ideias que eu tenho sobre storytelling, e vou tentar explicar essas ideias de uma forma mais organizada se eu ver que elas funcionam na prática e não só na teoria.

Uma dessas ideias é a sobre o narrador da história.

Antes de começar a entrar no assunto, eu quero registrar que é meio estranho estar falando disso num devaneio porque é um assunto relativamente bem definido, e um devaneio é algo mais aleatório; porém, eu ainda não tenho uma ideia bem definida, eu quero tentar encontrar alguma coisa enquanto escrevo esse post, e isso parece um pouco com devaneio, então vou registrar dessa forma, e inclusive talvez eu faça de novo dessa forma: com um assunto específico em foco.


Agora eu estou um pouco frustrado porque fiquei o dia no pc e não consegui fazer muita coisa(quase nada na verdade), mas não acho que isso vá atrapalhar muito.

O que eu quero fazer aqui é organizar melhor as ideias sobre o narrador de uma história, ou melhor dizendo, como escrever uma história.

Talvez possa sintetizar melhor a questão com: Quem escreve a história?


Nas vezes que eu tento escrever uma história eu tenho muita dificuldade pra pensar em como eu deveria fazer:

Deveria ser através da visão de um personagem ou como um narrador onisciente? Ou talvez como um observador...

O problema é que a narrativa é limitada pelo narrador, eu não posso escrever uma história pela ótica do meu protagonista e depois tentar explicar as coisas que ele não viu.

Aliás, eu até poderia, mas isso implicaria em uma mudança de narrador, que seria um recurso confuso pra se usar o tempo todo porque o leitor não saberia ao certo quando seria o narrador ou quando seria o personagem...

Uma forma de resolver essa confusão poderia ser colocar os pensamentos do personagem em itálico e mudando a cor; e uma legenda poderia ajudar...

Claro, isso teria que ser feito com cuidado e com algum conhecimento sobre o uso das cores, e não poderia deixar a página toda colorida criando um clima confuso(a menos que a confusão faça parte da cena).


Outro problema, antes que eu me esqueça, é que a narração do narrador e do personagem são diferentes...

A narrativa de um narrador é para "você" ou para "ele"(uma terceira pessoa que estaria ouvindo a história), a narrativa de um personagem é para si mesmo.

É diferente de um post nos devaneios onde eu falo para mim mesmo às vezes e outras vezes falo para um leitor imaginário...

Quer dizer, existem diferentes tipos de narração, eu tenho que admitir que não tenho tanto conhecimento para isso(talvez já tenha dado para perceber XD), mas é possível identificar 3 tipos que são os mais óbvios pra mim:


1- O narrador que fala algo para si mesmo: Se ele estiver são ou em situações normais, ele não tem ciência de que ele é um personagem de uma história e tem alguém lendo seus pensamentos, então normalmente ele não pode agir como se ele soubesse disso.

Digo normalmente porque mesmo alguém que fala para si mesmo às vezes pensa como se estivesse falando para alguém, simulando algo que esse alguém poderia dizer, pensar ou fazer. Nesse caso tanto o "eu" da narrativa quanto o "você" pertencem à mesma mente, quando o leitor ler, vai notar que o personagem não está realmente falando com ele.


2- O narrador que fala algo para o leitor: Esse tem noção de que é alguém dentro de uma história, mas por conta dessa noção, ele salta da história para o leitor.

Ele indaga, diz o que pensa, tenta imaginar o que o leitor poderia estar pensando, mas tem noção de que o leitor é alguém real; ele olha para o leitor não com os olhos da imaginação, mas como quem olha para uma parede tentando enxergar o outro lado, as folhas do livro são a parede, se ele for capaz de olhar além das folhas, ele pode olhar nos olhos do leitor.

A diferença entre o narrador 1 que fala consigo mesmo como se estivesse falando com outra pessoa e o narrador 2 é como a diferença entre se imaginar conversando com uma pessoa e conversar diretamente com ela.

O narrador 2 é como alguém escrevendo uma carta, o narrador 1 é como alguém treinando como vai pedir um aumento para o patrão.

Eu gosto desse porque é o narrador que o leitor pode chamar de "você", apesar de que isso é bem complicado de alcançar...


3- O narrador que fala algo para alguém: Esse é um misto entre o 1 e o 2, porque ele não tem uma consciência muito concreta do leitor, mas ele tem consciência de que está contando uma história para alguém que ele pelo menos imagina ser real.

Poderíamos dizer que o narrador 1 viraria o narrador 3 se ele alucinasse ou simplesmente contasse uma história para outro personagem.

O narrador 2 acabaria virando o 3 ao formar uma imagem imaginária do leitor e começar a conversar com essa imaginação, atribuindo falas ao leitor que não são dele, mas principalmente ao fazer o leitor perder a noção do "você".



Bem, podem haver outros, mas por hora esses 3 são os básicos, e não tentei forçar o 3, realmente são os que eu penso que existem.

Existem diferenças muito concretas na forma como eles interagem:



O narrador 1 é o Pensar, ele não tem noção de tudo que acontece e nem tem propriedade suficiente pra explicar a motivação de outros personagens a menos que ele argumente bem, ele tem que seguir toda uma lógica que limita bastante a narrativa, mas é a forma mais imersiva e pura de explicar um personagem: simplesmente deixando ele se explicar e não dizendo o que ele é.

Na minha visão, o Pensar é a forma perfeita de exposição, e entra em algo que eu achei chato em uma história que eu li há alguns meses(apesar deu ter me apaixonado por ela e que talvez eu esteja só exagerando), vou tentar explicar:

Nosso herói vê sua amada e o narrador começa a explicar a beleza da cena e o que o herói sentia, então ele usa palavras como "elegante", "deslumbrante", "inesquecível" de uma maneira apenas expositiva.(Se eu tivesse a cena aqui eu mostraria, daria pra visualizar melhor porque eu mesmo não lembro muito bem)

Dizer para o leitor que uma personagem está muito elegante ou usar vários sinônimos dessa palavra é meio redundante. Pense bem: Se o leitor leu uma explicação de como a personagem estava, ele vai ter uma noção de que ela está elegante, se ele não leu, ele não vai ter essa noção só com uma exposição tão direta, ele só vai pensar "tá bom..."

Nesse caso em questão, após uma explicação de como a amada estava pelo Pensar ou mesmo por outro narrador(até porque geralmente não faz muito sentido o Pensar explicar essas coisas), o Pensar do herói poderia mostrar ao leitor o impacto de uma forma pura e pessoal, deixando o leitor tirar suas próprias conclusões através dos acontecimentos em si e não através de uma conclusão que o narrador já mastigou.

E o Pensar é basicamente a forma de expor um personagem de forma pura, que eu imagino que seja a forma certa; é melhor que o próprio personagem defina seus pensamentos e ideias do que o escritor, porque parece mais natural, quando o escritor diz algo incoerente, parece que ele está tentando forçar esse algo.


O narrador 2 é o Outro, ele não precisa ser tão localizado quanto o pensar, mas ele precisa ter noção do leitor e ele precisa falar com o leitor diretamente. Talvez esse narrador se torne mais comum com as IAs, mas num livro ele tende a ter um espaço limitado para aparecer, muitas vezes como uma consciência que faz um personagem quebrar a 4ª parede, outras é o narrador tentando te explicar algo diretamente...

Esse narrador me parece a melhor forma de criar um coleguismo com o leitor, uma forma do narrador se tornar amigo do leitor, e me parece ser importante que ele tenha noção de que não pode ouvir o leitor(a menos que ele possa...) pra deixar firme a noção realista da interação.

Se o Outro fizer uma pergunta ao leitor e prever de forma incorreta a resposta, o leitor vai perder a noção de uma interação em 2ª pessoa e vai ter uma noção de 3ª pessoa, isso muda bastante a relação, é como a diferença entre conversar com um amigo e ver uma pessoa conversando com outra...

Acho que esse narrador é muito comum em propagandas e em alguns textos direcionados a um público específico, onde algumas pessoas podem identificar o narrador como "você" e outras podem identificar como "ele", dependendo de quão certeiro o narrador consegue ser.

Mas pense bem: Se o Outro souber que ele não pode lhe ouvir e a conversa sempre levar em conta essa ideia, é possível manter uma conversa sem correr o risco de perder essa conexão do "você", seria jogar no seguro, apesar de que o risco de tentar prever o que o leitor vai pensar seja bem recompensado.


Apesar dessa entrada no "ele" meio que transformar esse narrador no que vou explicar a seguir, imagino que a noção ou preocupação com o leitor é o determinante, porque mesmo que ele passe para o "ele", se essa preocupação persistir, é possível voltar para o "você" rapidamente, como se o narrador fosse alguém falando com 2 pessoas e uma delas é o leitor.



O narrador 3 é o Orador, ele conta a história para alguém que geralmente é um personagem mas que também pode ser outro narrador.

A diferença básica do Orador para o Outro é a falta de preocupação com o leitor, ele conta a história para um terceiro ou simplesmente conta a história como quiser, é mais simples de fazer, mas dá pra usar a pessoa pra quem ele conta a história como uma forma de interação.

Certa vez eu tentei ler um livro que tinha 2 narradores contando uma história e esses 2 narradores ficavam discutindo um com o outro, e eu achei esse um bom uso do Orador. Não terminei de ler o livro, depois vou ver se ele ainda existe, isso era da época que eu era criança...

Algo interessante do Orador é que ele é mais ligado ao lore do que ao leitor, então ele tem mais relação com a história e ele acaba tendo um potencial imersivo um pouco maior do que o Outro.



Isso me faz pensar, na verdade existe outro narrador...


O narrador 4 seria o Descritor.

O Descritor é limitado pela explicação de algo.

Quando eu converso com alguém e quero explicar algo, eu preciso esquecer a pessoa por um momento e me concentrar naquilo que estou explicando, então eu passo por uma imersão dentro de minhas experiências e começo a descrever as coisas.

Mas o Descritor provavelmente seria usado mais como um recurso narrativo pra explicar uma cena de forma um pouco mais impessoal...

Ele entra um pouco como uma faceta do Pensar, do Outro e do Orador, porque independente de quem seja o orador e pra quem ele esteja falando, seja pra si mesmo, pro leitor ou pra um terceiro, vai ter momentos onde ele precisa se lembrar ou ver, e explicar o que viu.

Às vezes eu tenho que falar pra mim mesmo ou pra alguém sobre algo que eu vi, eu meio que tenho que parar de me concentrar na pessoa, até mesmo percebi que olhar nos olhos atrapalha a explicação, esse seria o Descritor, alguém que se concentra em algo e não fala pra alguém, ele apenas trás à mente e explica com palavras.



Já está ficando bem tarde, vou ficar nisso mesmo, acho que deu pra organizar melhor as ideias.

Quando eu tiver mais tempo eu vou tentar começar a história, mas talvez eu comece mesmo sem tempo...

Não vou corrigir o texto agora, deve estar cheio de erros, mas foi até mais tarde do que eu previ e pode ser melhor dar uma relida depois que os pensamentos se esvaírem, ou como é um devaneio, os erros acabam fazendo parte...

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