sábado, 28 de outubro de 2017

Devaneios sobre Storytelling #1 (Fundamentos)

~ ~ ~  Por quê?  ~ ~ ~ 

Eu não posso dizer que tive um contato grande com livros de histórias a ponto de me orgulhar, eu li várias histórias,  principalmente mangás, mas acho que poderia ter lido mais...

Eu posso dizer que, na minha primeira fase de vida(~9), eu tive experiências que me marcaram, principalmente porque eu não conseguia terminar as histórias que lia: Um livro com as últimas folhas faltando ou um desenho eu amava mas que eu não conseguia assistir, séries e novelas que me tocaram e eu não pude assistir, filmes que eu desejava ver mas nunca pude, e que até hoje não vi.

É engraçado quando paro pra pensar nisso, mas de certa forma, isso também se estendeu pra minha vida: Amigos importantes que se mudaram, um amor que nunca foi pra frente, um irmão que parei de ver, amizades desgastadas... oportunidades e relações que não se tornaram completas, e um sentimento de frustração o qual eu já me acostumei.

E quando paro pra pensar nisso, penso que outras pessoas devem se sentir assim também, eu gostaria de ouvir alguém falar sobre isso, seria bom se eu aprendesse uma forma de fazer as pessoas se abrirem...

A segunda fase(10~16) da minha vida foi estranha, foi a fase com a maior quantidade de oportunidades, mas também foi a fase onde essa apatia se abateu sobre mim e eu parei de agir como agia antes, foi uma fase onde eu não se sentia bem comigo mesmo nem com os outros. Isso melhorou muito depois que me aproximei mais de Cristo, mas ela acabou voltando depois, talvez por conta das frustrações ou das lembranças.

A terceira fase(17~), e isso pode parecer estranho, mas o marco foi quando eu li One Piece como um louco durante 1 mês; nessa época, talvez tenha sido porque eu pude ler até me fartar, ou talvez porque a obra me ajudou a organizar ideias e sentimentos, mas foi quando eu comecei a pensar sobre histórias e sobre as coisas que as histórias conseguiam me fazer sentir.

Não foi tão rápido, nessa fase eu também perdi muito tempo com outras coisas, mas de alguma forma os meus pensamentos ficaram muito mais organizados. Antes eu ficava sem entender quando me sentia de alguma forma, hoje eu quase sempre tenho alguma explicação, e eu acho que devo muito isso às reflexões enquanto lia algumas obras.

Eu tenho um pensamento sobre isso: nenhuma resposta sobre algo abstrato é correta, mas todas elas poderem ajudar a entender alguma coisa ou são pelo menos uma base para um próximo entendimento mais elevado(apesar que ideias erradas podem fazer essa base desmoronar).

Então, eu comecei a pensar bastante sobre o que eu via, e ainda falta estudo para eu entender melhor, mas eu gostaria de ir registrando o que eu já pensei.



~ ~ ~  O quê?  ~ ~ ~ 

O que seria a arte de contar uma história?

Eu imagino que essa resposta passaria sobre 3 aspectos:

1: O Tema

Uma história parte de um tema. As palavras não são o mais importante, mas sim o questionamento e o sentimento que elas conseguem trazer, é por isso que histórias podem ser contadas sem usar palavras, porque uma história é alusiva.

As palavras deram à humanidade um poder gigantesco de fazer alusões, mas acredito que essa é uma daquelas situações onde temos que lembrar que a caneta não é mais importante que o desenho, e não entenda errado, a caneta é essencial, mas ela é instrumento e não objetivo.

Um homem das cavernas poderia desenhar uma criança na parede de sua caverna, sempre que ele olha para o desenho, ele lembra dele mesmo. Outro homem aparece anos depois e vê o desenho, quando ele olha, ele lembra de seu filho.

Quando você quer analisar o significado de uma obra, o ideal é separar bem as coisas, aquela obra pode ter um significado para o autor e outro para o leitor, esse significado não é algo intrínseco da obra, mas ele é criado pela alusão que ela trás ao seu apreciador.

É preciso separar também significado de intenção, o que o autor queria fazer é a intenção, cada resultado de uma interação com a obra cria um significado próprio, mas é possível pegar uma dessas interações e registrar, e então mostrar a obra por essa ótica e criar um "significado universal", que pra mim, nada mais é que um registro de uma abstração. Quero só finalizar dizendo que eu acho justo que alguns significados sejam mais interessantes do que outros, a quantidade de contexto que alguém é capaz de relacionar e a concretude realmente podem criar um significado mais elevado, e isso pode até ser convencionado, mas é apenas abstração, não existe um elo material.

Pode ser complicado de lidar com essa separação toda, mas é preciso entender que não dá para controlar o significado de uma obra, e nem é interessante que isso seja feito.

Se o leitor não vai ter acesso às experiências que o autor tinha quando fez a obra, ele poderia sentir as mesmas coisas? Não é melhor trabalhar com as experiências do próprio leitor, que vão sei muito mais importantes para ele e vão aumentar bastante a eficiência da história?

É preciso pensar da perspectiva do outro quando se escreve, é por isso que eu tenho uma visão de "tema" que tenta se enquadrar dentro do que o leitor facilmente pode perceber e entender.

Nessa visão, o tema é composto de 2 aspectos:

- Um aspecto da vida.
Acontecimentos(brigar, disputar, festejar...)
Sentimentos(amor, ódio, ansiedade...)
Instituições humanas(família, filas, justiça...)
 Dentre vários outros.

Eu qualifico isso como um tipo de experiência que existe e que a alguém costuma ter, um campo do conhecimento ou da experiência(até mesmo não humana) que é usado como base ou que é focado para deixar mais claro e aproveitar melhor o conteúdo e a própria capacidade do leitor de manter a atenção focada naquele tema.

- Questionamentos.
Dar uma resposta é complicado, e para o leitor, aquela resposta pode ter vários motivos para estar errada, e talvez ele até tenha razão(provavelmente alguns terão).

Eu tenho observado que alguns autores dão muito destaque pra algumas respostas e os leitores muitas vezes notam as inconsistências e criticam bastante a obra(com alguma razão). Mas isso tem um problema(pelo menos na minha visão): "nenhuma resposta sobre algo abstrato é correta". Não dá pra acertar, quando se trabalha com respostas, é melhor pensar em "ação e consequência" e trabalhar com questionamentos, tentar manter a coerência e não ter medo da resposta estar "errada", mesmo que você tenha um elo afetivo com aquela resposta.

Outra coisa é que as respostas são testadas pela narrativa, é um erro estrutural testar a narrativa pela resposta sendo que a resposta é um produto da própria narrativa(pelo menos da forma como ele se apresenta nela). E o que muitos autores parecem fazer é ter uma resposta sobre um aspecto da vida e construir uma história sobre essa resposta, e se a narrativa parece entrar em conflito com essa resposta, eles mudam a narrativa e criam inconsistências a fim de poder dizer aquilo que querem.

É uma forma mimada de pensar. É mais interessante se você pensar em questionamentos e fazer suas personagens darem respostas, sempre tentando manter a coerência, e se você não gostar do rumo das coisas, talvez seja porque você mesmo deveria questionar aquela forma de pensar.

Primeiro você define o questionamento, depois suas personagens dão respostas, depois você mostra as consequências e depois uma resolução. A resolução é da própria personagem, é interessante que, caso você queira muito dar uma resposta, ela só apareça na resolução, pois o que acontece nela é passivo de questionamento e tem um caráter de opinião, é como se a personagem tivesse aquela ideia e o leitor pode questionar sobre ela no final da leitura, e quando ele fechar o livro, ele vai poder pensar sobre aquilo.

Questionamentos criam oposições entre ideias, pois as respostas de uma personagem podem ser questionadas por outras(tese e antítese), isso gera conflitos que podem ser explorados em diálogos e disputas, então, é interessante questionar sempre que possível.

Eu me estendi bastante, mas em resumo, esse primeiro aspecto se refere a questões mais filosóficas por trás da obra.





2: O Ambiente Abstrato

pós-add: Possibilidade e frustração, dá pra usar os 2 aspectos para tocar o leitor

Acredito que nós usamos detalhes de nossa experiência sensível com o mundo em que vivemos para criar e recriar ambientes de nossas memórias; os sentidos são essenciais, uma pessoa sem sentidos não poderia aprender a criar mundos e viveria numa escuridão eterna.

Mas seguindo essa ideia, o ambiente abstrato seria formado por todos os elementos que fazem alusão à sensações: Um beijo, o som do trânsito, a aparência de alguém, o cheiro de chocolate, a sensação de equilíbrio, a dor e o prazer, todas as sensações juntas criam a abstração do ambiente, e o ambiente cria a possibilidade e a limitação.

A oposição entre a possibilidade e a limitação(frustração) é muito importante pra criar "conflitos sensíveis". Os conflitos sensíveis seriam sensações que causam prazer ou sofrimento relevantes a ponto de acionar um pensamento ou uma emoção.

Eu penso nesses conflitos como pontos de ignição, um cheiro que faz a pessoa apenas reconhecer o ambiente não seria um conflito sensível, mas se um cheiro remete a memórias felizes ou a um trauma e fazem a narrativa entrar no tema ou no desejo(que é o próximo ponto), aí sim ele seria um conflito sensível.

Talvez eu esteja falando apenas o óbvio, mas é interessante notar que os elementos do ambiente são elos de ligação com elementos dos outros dois aspectos(tema e desejo), sempre que um elemento desses for apresentado, tem uma boa chance dele remeter a algo, e perceber o elo que o elemento tem ao colocá-lo na cena, pode ser vital pra construir uma narrativa precisa e complexa usando um pequeno número de palavras e ganhando fluidez.

O que é melhor: Explicar como uma personagem é desleixada ou simplesmente dizer que tem vários copos espalhados pela casa? Explicar que houve uma festa na noite passada ou apenas dizer que tinha caixas de pizza debaixo da pia? Explicar a personalidade de uma pessoa ou apenas pôr as nuances nas ações dela?

Cada situação demanda um tipo diferente de abordagem, às vezes é melhor explicar bem, às vezes essa explicação só torna o texto muito chato de se ler.

Eu acho que é interessante deixar o leitor participar do processo criativo, essa ideia de abusar dos elementos do ambiente abstrato para explicar coisas pode dar uma margem para interpretações equivocadas mas, pra mim, vale a pena.

Outra coisa importante é lembrar que as sensações podem ser positivas ou negativas(e existem nuances de positividade e negatividade), tomar cuidado para não ligar uma sensação negativa a um sentimento positivo é importante, ou se essa ligação acontecer, que exista um motivo consistente por trás para não causar estranheza.

As sensações provocadas pelo ambiente geram as experiências nas personagens, algumas nuances do comportamento delas pode remeter a essas experiências, então é precisa se atentar a isso sempre.


3: O Desejo

O que faz uma história ser boa?

Eu admito que essa opinião é ainda mais pessoal do que as outras, que tenho sentimentos que me fazem dizer as palavras a seguir, esta foi a minha conclusão:

É o desejo que faz uma história ser boa.

Eu fico muito feliz vendo histórias sobre relacionamentos(de todos os tipos) porque um dos meus desejos mais profundos é ter bons relacionamentos, apesar de que, talvez por conta de algum grau de autismo, eu tenha dificuldade de conversar e de me aprofundar nos relacionamentos que eu tenho.

Quando eu escrevo eu sinto que consigo dizer muito mais do que quando eu falo, e parece que quando eu falo, nada sai como eu gostaria, ou eu não sei ler direito as pessoas, ou eu fico disperso e perco o timing. Talvez o problema seja que, na hora da verdade, eu acabo tendo receio em me abrir ou em ficar em uma posição vulnerável, eu tenho problemas pra confiar nas outras pessoas.

Engraçado, até agora eu não tinha pensado nisso de uma forma tão clara, mas é assim mesmo...

Quando eu vejo uma história que fala sobre esses relacionamentos e sobre confiança, a história se torna automaticamente boa, ela me dá aquilo que eu mais desejo.

O desejo está presente em várias personagens em formas diversas, o desejo é aquilo que impulsiona, e quanto mais desejo, mais importantes se tornam as ações. O desejo é sobre aquilo que não se tem, é sobre sair de um estado de menos felicidade para um estado de mais felicidade, é sobre preencher os vazios que se formaram através do tempo, é o que promove a ação e sem ele a trama não faz sentido.

O desejo pode culminar em realização ou frustração.

A realização ou a frustração se transformam em sentimentos, e esses sentimentos geram novos desejos e isso tudo gera um ciclo. É interessante não abandonar o ciclo depois dele ter sido criado, se um personagem deseja algo, é bom que a sua realização ou frustração se transforme em um sentimento que traz num novo desejo até que ele chegue a uma conclusão nova e ponha fim nesse ciclo.

É importante notar que o desejo tem um elo de ligação forte com a temática e com o ambiente, ele é uma resposta aos questionamentos da temática e ele gera uma necessidade de agir sobre as possibilidades do ambiente.

As limitações do ambiente(físico ou metafísico) geram algo que eu chamo de "parede intransponível". Essa parede é uma impossibilidade de realizar um desejo, é uma situação onde a frustração é inevitável e que gera um sentimento de desesperança.

A morte, o tempo, a distância, a sociedade e a incomunicabilidade(que abrange não só a parte linguística como a cultura e a empatia) são exemplos de paredes intransponíveis que fazem parte da realidade e são entendimento comum ao ser humano.

Criar paredes intransponíveis tende a causar frustração, quebrar essas paredes costuma causar satisfação. Lembre-se que o leitor também tem seus próprios contextos, se ele tem uma parede intransponível na vida dele e a sua história quebra uma dessas paredes, a sua história será boa na visão dele, então quebre as paredes, isso é gigantesco.




~ ~ ~  Como?  ~ ~ ~


Cotidiano
Acontecimento
Adaptação
Mudança


Há uns 2 anos atrás eu li em um blog sobre a storytelling  Dan Harmon, este é o link da matéria que eu li.

Depois de ler, eu refleti nas ideias tentando entendê-las; não acho que realmente consegui, mas cheguei à ideia de que realmente existem 4 etapas em uma história onde os 3 aspectos(tema, ambiente e desejo) estão presentes em cada uma delas.

Primeiro é importante explicar que cada etapa consiste em uma relação de oposição, isso acontece por conta do mecanismo de "tese/antítese/síntese", o primeiro termo é a tese, que é o ponto inicial daquela parte, o segundo é a antítese, que entra em conflito com a tese e resulta na síntese, que é o primeiro termo da próxima parte, criando um sistema iterativo, um ciclo infindável onde a ordem é afetada pelo caos, e esse conflito gera uma nova ordem que é afetada pelo próximo caos.

Também é importante dizer que os pontos abaixo se centram em uma personagem, ao trabalhar várias personagens, é preciso lembrar que os pontos abaixo precisam ser trabalhados de forma diferente para cada uma, cada personagem é uma história e cada história é uma personagem. A narrativa pode ser a intersecção de várias histórias, caso isso ocorra, é importante separar por personagem.


1. O Lar e o Problema

O Lar fala sobre a cultura e o estilo de vida de uma personagem, é o lugar comum que molda a forma como ela entende o mundo e se relaciona com outras personagens.

O lar é a ordem, ele pode ser uma casa, uma cidade, uma loja ou mesmo a estrada. Uma personagem pode ter vários lares, cada um com suas regras e dinâmicas, e essas dinâmicas moldam a personagem, porque dá a ela as experiências que ela usa para entender tanto o ambiente do lar como os novos ambientes que ela vai vir a conhecer(pelo menos num primeiro momento até ela aprender as novas dinâmicas desse outro ambiente).

O problema é o caos que cria uma oposição ao lar. Lembre-se que isso é a nível de personagem, então essa oposição pode ser algo grande a ponto de destruir o lar ou pode ser algo interno da personagem, como uma inquietação ou um desejo por mudança.

Lembre-se que essas relações são de tese, antítese e síntese, e que a temática mexe bastante com as questões filosóficas, então é possível sim dizer que a temática e seu desenvolvimento dentro do ambiente e através dos desejos criam esse motor, esses pontos são etapas desse motor.


2. A Estrada e o Aprendizado

A estrada é a síntese do conflito anterior. Vale explicar que a palavra "estrada" é usada aqui como uma alegoria, não é necessariamente uma estrada, mas na verdade é um ambiente novo onde a personagem segue por conta de algum desejo(eu considero necessidade como algum tipo de desejo).

A estrada é sobre esperança e a ordem proveniente dessa esperança.

O aprendizado é o caos, é onde se exploram as dificuldades(até mesmo uma desesperança por entender melhor a situação) e a personagem é moldada e passa por mudanças para vencer essas dificuldades. É importante lembrar aqui que o caos e a ordem não são necessariamente bons ou ruins, depende da forma como são desenvolvidos, eles são mais sobre estados, sobre respostas(teses) que são questionadas(antíteses), e no aprendizado é a hora dos questionamentos.

Se existe um aprendiz, costuma haver um professor, e eu tendo a dizer que esse professor faz parte da estrada, tanto porque ele existe antes do aprendizado como porque ele faz parte da ordem(a esperança), mas o professor também costuma ser um agente questionador, e se considerar que ele é um personagem, então acho não faz tanto sentido prender ele dentro de algum aspecto específico.


3. A Reafirmação e a Escolha

 A reafirmação é a síntese do conflito entre a estrada e o aprendizado.

A personagem acabou de passar por um aprendizado árduo e sua mente acabou de se recuperar desse caos, aqui é hora dela se reestabilizar. Ela aprendeu, agora ela tem uma consciência superior sobre si mesma e sobre o mundo, ela explora as possibilidades novas que apareceram à sua frente, ela contempla a possibilidade do sucesso.

A Escolha entra como o caos. Esse tende a ser o ponto alto da história, pois a personagem precisa pagar um preço para ter aquilo que se quer, e isso a consome, consome o seu auge alcançado na reafirmação e cria um conflito que ameaça a sua própria existência.


4. A Mudança e o Renascimento

A mudança é o retorno da ordem depois da escolha. Após um preço ser pago e de todo o desgaste, a personagem muda e aceita aos poucos tudo o que aconteceu, ela tenta alcançar uma paz de mente, um estado de conforto, ela tenta se conformar.

O renascimento é o momento onde a mudança é questionada, onde se toma o aprendizado e a personagem deixa de lado o conformismo para retornar a uma posição ativa. Ela se torna uma nova personagem que vai participar de uma nova aventura.











...

Um personagem é forte quando um desejo forte está relacionado com ele e com o leitor.

Personagens que tem um forte sentimento de amizade, de solidão, de conquistar algo ou mesmo uma tristeza profunda...

Cada um dos nakamas de Luffy em "One Piece" foi introduzido de fato como personagem a partir de um sofrimento(e esse é outro aspecto) e um desejo profundo que o guiou para a aventura.

Naruto era um garoto rejeitado por todos, essa rejeição criou um ambiente de sofrimento que fez emergir um desejo por ser reconhecido, que o guiou no início de seu caminho ninja.

Mesmo as personagens femininas hiper sexualizadas que não servem de nada além de ser objeto do fetiche do leitor são personagens fortes quando existe um elo entre a personagem e o desejo sexual do leitor.

Apesar de entrarmos no controverso ambiente da subjetividade, a concepção e a existência desse elo de desejo é o que dá a força pra uma personagem; um leitor vai dizer que a personagem X é fraca e outro vai dizer que é forte, um diz que é ruim e outro diz que é boa, mas esse tipo de comparação não faz sentido, o parâmetro tende a entrar num caráter subjetivo e acaba por revelar preferências pessoais e desejos da própria pessoa.




Eu arrisco dizer que a existência do fator desejo tem alguma objetividade, e apesar dele não servir pra determinar o "bom" ou "ruim", ele pode determinar o "forte" e o "fraco".

Uma personagem carregada de desejo é capaz de conversar com o leitor em um nível que excede a linguagem escrita, esse elo traz o leitor para dentro da história, e então ele se vê torcendo por aquela personagem.


Só que existe um problema, pois o desejo não é exatamente algo lógico e sistematizado, é algo mais sensível e resultante de uma experiência ou um pensamento, o desejo e as palavras pertencem a dois reinos diferentes.

Para transformar palavras em desejos, é preciso que as palavras sejam entendidas como guias e não como os próprios desejos em si, é preciso entender que não são as palavras que importam, mas aquilo que elas trazem ao leitor, e o escritor precisa ter a capacidade de usar aquilo que reside dentro do próprio leitor, é preciso desenvolver a habilidade de pensar no outro, de trazer à tona o que ele tem dentro de si, e também é preciso dar tempo ao leitor.

É meio estranho pensar nisso, e realmente tenho que admitir que só estou pensando nisso(sobre dar tempo ao leitor) agora enquanto escrevo este texto...

O início da história teria que ter algumas etapas:

1. Teria que apresentar o universo inicial, bem palpável pelo leitor, seja através do uso de elementos que remetem ao mundo do leitor ou do uso de alegorias com a própria condição humana, coisas em comum entre todos nós;

1,5. Depois teria que mostrar a personagem que sofre com algo dentro desse universo inicial, criando uma transição entre o universo e o desejo.

2. Daí a personagem, com suas características próprias, motivada pelas suas experiências com o universo em questão, desenvolve um desejo profundo. Nesse ponto é onde o escritor pode cometer o erro de seguir o caminho lógico quando esse é o momento para pôr todo o coração dentro da obra, é nesse momento que ele precisa ser a personagem enquanto ele escreve a personagem, ele precisa transitar entre a lógica da linguagem e os sentimentos, mas como fazer isso?

2,5. Depois é preciso voltar à razão, a história precisa seguir uma sequência lógica. Uma ideia que tive agora é que essa transição pode acontecer a partir de um texto com várias informações irrelevantes, com caráter puramente estético e uma condução para dentro do universo que vai ser desenvolvido a seguir, e como estamos saindo do sensível para o lógico, pode ser uma boa hora para criar algo absurdo(um acontecimento talvez?), mas que case bem com o desejo.

3. Então é apresentado um novo universo de novas possibilidades, mas também com seus próprios problemas, onde a aventura irá se desenvolver.


Storytelling é bem mais do que isso, mas essa mudança constante entre a linguagem e o sensível é algo que eu só entendi há pouco tempo, e esse é um ponto importante até mesmo como leitor: Às vezes é melhor não tentar entender uma obra com palavras.

E isso me faz pensar: Até onde as palavras são importantes?

E ultimamente eu tenho visto as palavras como caminhos; eu tenho me atentado mais ao uso das pontuações e pensado mais sobre os tempos.

Quando eu escrever uma obra de verdade, ela precisa ter um bom uso desses tempos e de métrica, mesmo que demore anos pra terminar...

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